Cascata das Lágrimas / Enseada dos Náufragos




 "E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago.

   Porque sabe , sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano."                    

Em baixo, uma bela praia de areia dourada, formando uma enseada, uma pequena baía de uma paisagem idílica de postal. O acesso por terra extremamente difícil e sempre que necessário entrar lá tinha que ser por via marítima.

Por cima uma enorme arriba brotando por entre duas grandes rochas em forma de olhos uma água fresca e cristalina que caia sobre as areias da baía. Ao largo da enseada, na imensidão do mar formava-se umas correntes marítimas que nos dias mais agrestes não era de todo aconselhável pôr lá navegar.

Perto existia uma povoação que a maioria dos habitantes masculinos se dedicavam à faina da pescaria. Esta praia por norma deserta era conhecida por enseada dos náufragos que devido a essas correntes fortíssimas eram arrastados para lá.

As mulheres, mães, filhas, noivas desses enjeitados do mar, sempre que acontecia uma tragédia corriam para a enorme falésia na esperança de ver ou saber de seus familiares. Fustigadas pelo mau tempo metiam-se entre as duas rochas e num carpir olhando de olhos postos na praia procuravam algum vestígio que lhes desse algum alento de esperança. A tragédia foi tanta e tão constante que maioria dos habitantes foi saindo à procura de melhores condições de subsistência deixando para trás os idosos e alguns mais resistentes teimosos que aquelas paragens os viram nascer. O lugar na falésia entre as duas rochas deixou de ser tão frequentado e a sua cascata foi diminuindo o seu caudal de água.

No povoado ainda restavam os dois mais idosos e experientes lobos do mar, o mestre Bento e contra mestre Neves da Nora que depois de uma debandada familiar ficaram com eles a filha Ana do Mestre e o filho Chico da Nora e tinham casamento marcado para a Páscoa no início da Primavera.

Aconteceu o que já não acontecia há muitos anos, a tempestade repentina e uma enorme onda apanhou de surpresa a meia dúzia de homens que navegavam na traineira virando-a e lançando todos ao mar, a embarcação foi-se partindo contra os rochedos, os homens, exaustos foram desfalecendo entregues a sua sorte.

Na aldeia estranhava-se o atraso do regresso e quando os primeiros raios de sol surgiram começaram avistar algo estranho a flutuar.  correram para a falésia e puderam constatar o que mais temiam, corpos misturados com destroços espalhados pelas areias da enseada.

Todos morreram e corpo do Chico da Nora nunca chegou aparecer, a Ana do Mestre refugiada entre as duas rochas num pranto de tanta tristeza que se petrificou com as rochas aumentando o caudal da cascata de uma água nem doce nem salgada

De tempos a tempos irrompe pela enseada uma onda que se ergue pela falésia tocando os olhos das rochas da cascata num encontro como de um abraço se tratasse.





Comentários

Mensagens populares deste blogue

ENCONTROS IMEDIATOS DE UM QUALQUER GRAUº

A FRAGA DO LOBO

28 Dias de Paixão -Tatuado No Coração