A FRAGA DO LOBO

 

                                                   A  FRAGA DO LOBO

 



                                                                 CAPITULO I 

Na aldeia conta-se que um viajante aventureiro ao fazer a travessia dessas montanhas maciças, de penhascos vertiginosos, cobertos de neve praticamente todo o ano, foi ajudado quando estava quase a desfalecer do enorme esforço por um ser muito estranho e quando acordou estava numa casa junto ao rio desabitada, mas tinha queijo e pão na mesa. A água cristalina que corria por entre pedras e vegetação, acalmava numa planície depois de tanto correr montanha abaixo alimentada ainda mais pelo degelo primaveril. A planície em baixo no Outono começava a ficar amarelada e em tons castanhos, salpicada aqui e ali por outras cores de restos do verão , nos Invernos rigorosos a neve acumulada dava um tom branco angelical à enorme cordilheira montanhosa, o prado em baixo com cores cinzentas invernais, na Primavera trazia vida, o verde começava a aparecer e as giestas abrir em flor alimentando uma enorme panóplia de seres vivos , no Verão as sombras frescas pelo imenso bosque e o rio de água límpida transmitia uma frescura apetecível. Junto ao ribeiro um velho moinho forrado a musgo que com a força da água movia as pás rodando a mó, moendo os grãos de milho numa farinha tão branca como a neve, uns metros mais acima, a velha casa de pedra tosca construída a pulso por quem tinha a vontade de construir um lar isolado de tudo numa opção de vida. Uma chaminé fumegante indicava o resultado final do árduo trabalho para ter qualquer coisa que comer na mesa. Ao lado da casa um curral de cabras famintas do desejo de correr pelos prados verdejantes. Era a única casa, isolada de tudo e perto do nada, de um lado as quase intransponíveis montanhas, do outro um bosque que se estendia ao longo do rio com um caminho florestal, a única entrada e saída para qualquer coisa que fosse parecida com um veiculo. De longe a longe aparecia um comerciante de carroça, carregada, para adquirir, queijos, uma ou outra e cabra, farinha e pão que tivesse sido feito recentemente e pagava em géneros alimentícios, roupas e calçado, já era assim desde os tempos dos seus pais que morreram ainda ele mal tinha saído da adolescência. O pai morreu de uma queda de uma árvore quando cortava lenha, a mãe, meia dúzia de anos mais tarde de infecção da mordedura de uma cobra, ambos por falta de assistência e auxilio devido ao isolamento que estavam votados. Do pai, quando se aperceberam da sua ausência já nada havia a fazer, os vários traumatismos e o longo tempo à espera foram a causa da morte. Foi enterrado junto a um penedo onde se costumava sentar nos breves períodos de descanso contemplando o seu vale e que servia também de observatório de onde podia avistar os perigos vindos de alcateias famintas. A mãe, depois de ser mordida por uma cobra e de ter preparado umas receitas caseiras para o efeito de nada adiantou, a febre altíssima, a lucidez desorientada fez com que ele fosse até à aldeia que ficava a uns vinte km de distância. Raramente percorreu aquela estrada, talvez uma meia dúzia de vezes que com o pai se dirigiram à aldeia para trocar os queijos fruto do seu trabalho por bens de primeira necessidade, ele poucas vezes o fez, o seu mundo resumia-se tão e simplesmente ao que o rodeava, nunca teve a curiosidade de saber o que existia para além das montanhas nem para lá da aldeia Nessa madrugada correu como se não houvesse amanhã, era urgente a ajuda à sua mãe. Quando lá chegou completamente esbaforido, mas com vontade e pressa de fazer o caminho ao contrário, procurou o curandeiro tipo farmacêutico da aldeia que se meteram na velha carroça, desta vez puxada por dois cavalos e vieram num galope apressado. O tempo foi longo de mais. A tristeza profunda o invadiu, o desespero tomou conta dele e mergulhado num pranto de choro, sentiu o que até então nunca o tinha sentido, o seu mundo tinha levado mais um desabamento . Enterrou a mãe junto ao seu pai, um de cada lado do penedo virado para o prado,. Jurou perante a sua cova rasa que iria procurar a cobra e vingar a sua morte. Para além das cabras, e outros animais de criação, só lhe restava o seu velho, fiel e o único amigo, um cão de pastoreio e de guarda que já existia antes de ele ter nascido mas ainda tinha forças na ajuda à guarda do rebanho

                                                                                        CAPITULO II

Medieval young adult at night on a snowy mountain.

Todos os dias de manhã, depois de ordenhar as cabras e antes das outras tarefas, acompanhado com o seu fiel amigo, subia à pedra sob o prado um enorme penedo que tinha o efeito de uma espécie de varanda e deixava uma flor de giesta na sepultura dos pais. Enquanto o cão guardava e guiava as cabras, carregava os grãos de milho para o moinho, adquiridos ao comerciante, transformando em farinha para cozer seu pão. O leite já ordenhado de manhã cedo era virado para os enormes potes negros pelo fogo e de tanto uso, que servia para fazer os saborosos queijos tão requisitados pelo comerciante. Ao final da tarde, esperava e procurava pacientemente qualquer rasto daquela que tinha sido a causadora do seu enorme sofrimento. Os dias começam a ficar mais pequenos, o sol ia descendo por trás da cordilheira. Os tons de cor quente Outonais ganhavam preponderância na paisagem do Prado. Era preciso adiantar trabalho, o inverno estava à porta, aprovisionar alimento para os animais e a recolha de lenha para passar o Inverno. Os afazeres repetitivos e mecanizados, a falta dos pilares familiares, a solidão ainda mais acentuada começam a inquietar um jovem que viveu adormecido de conhecimento de outras vivências e de convivo, sempre sustentado pela sombra dos pais. Os primeiros flocos de neve começam a cair, avisando para mais um Inverno rigoroso. O Prado do Penedo bem no sopé das majestosas montanhas é um reflexo do agreste dessa região, o luz do sol resume-se a pouco mais que cinco, seis horas por dia. Mas tudo estava preparado para passar o Inverno, os animais iam ter o que comer, a mó do moinho ia ter o que moer, a lenha seca e empilhada pronta para aquecer, cozer pão, ferver o leite para a cozedora dos saborosos queijos, que devido às características da região os tornavam únicos, foi também um dos motivos que levou seus pais a escolher viver isolados a tanta distância da aldeia de onde eram oriundos. Pelo meio de toda a nostalgia e melancolia que sentia, mesmo assim, sentia-se orgulhoso do seu trabalho. Estava a ser um Inverno severo, igual a tantos outros pelos que já tinha passado nestes pouco mais de duas décadas de vida. O cão, seu fiel amigo devido ao frio que se fazia sentir dormia dentro de casa também para lhe fazer companhia e pelo meio da madrugada começou a ladrar, um ladrar aflito de raiva que o acordou e pode também escutar o desassossego que vinha do curral das cabras. Já não era a primeira vez que os lobos investiam sobre as cabras, pegou na espingarda velha de seu pai e saíram dando tiros para o ar na tentativa de afugentar os lobos, o cão corria sobre eles. O alvoroço vindo do curral indicava qualquer coisa de trágico. Carregava a arma disparava os lobos faziam tentativa também de o atacar, o cão protegia-o metendo-se entre ele e a alcateia enquanto carregava disparava a arma abatendo alguns. Aparece o líder da matilha, um lobo corpulento ferido de raiva por ser interrompido no seu banquete e também por alguns membros da matilha terem sucumbido e quando preparava mais um tiro, o lobo atirasse sobre ele e em sua defesa sai o cão que numa luta feroz consegue afastar o lobo que fugindo regressam ao seu habitat subindo as montanhas. Não queria acreditar no cenário de massacre macabro que via à sua frente, não queria acreditar que estava a perder o último alicerce do seu mundo. O cão, seu companheiro, fiel escudeiro amigo, deitado no chão esventrado, agoniando de dores , olha para ele como a pedir que lhe acabasse com o sofrimento, pressentia que era o seu fim. Sentiu o que o velho amigo lhe pedia, sentiu que era isso que tinha que fazer, era doloroso de mais, mas não o conseguia ver em tremendo sofrimento e disparou. Ficou completamente estonteado, tão transtornado com o que estava a viver que abraçado ao seu fiel cão acabou por adormecer e passar a noite no gélido relento.



                                                                                          CAPITULO III último

Young medieval adult boy fighting the alpha wolf o

Ao meio de seus pais logo abaixo do penedo ficou sepultado seu cão. Agora, seu mundo tinha roído por completo, nada mais o prendia a esse lugar que o viu nascer e crescer, o seu interior estava completamente despedaçado, fragmentado. Em pé sobre o penedo, o mesmo que deu origem ao nome do lugar, olhava bem em toda a sua volta e deixou cair umas lágrimas. Nunca foi lamechas, foi criado num ambiente rude habituado ao trabalho quase desde que começou a andar que tomava conta das cabras juntamente com quem acabou de enterrar, de homenzinho passou a ser homem no dia que enterrou seu pai e após a morte da mãe ficou completamente só por conta e risco tratando com afinco de tudo como foi ensinado...era rude mas não tinha coração de pedra. Só um sentimento o fazia estar de pé, as forças que lhe restavam iam ser gastas nessa ira de frustração, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida

Fez-se ao caminho em direcção à aldeia, começou a engendrar um plano de vingança tal como tinha feito com a cobra, onde pacientemente a esperava todos os dias e quando encontrou o réptil com cerca de metro e meio a caçou e foi num ato maquiavélico provocando uma morte lenta. Agora era preciso ir atrás do que acabou por arrasar o seu mundo, não ia descansar até os encontrar, a perseguição tinha que ser implacável mesmo que tivesse que entrar no covil da alcateia. Na aldeia foi ao encontro do comerciante e só lhe pediu uma arma com mais qualidade e munições e que fosse ao Prado da Pedra e que pegasse em tudo que quisesse, não ia precisar mais nada do que lá tinha. O tempo estava muito hostil, os nevões caíam com muita frequência mas a determinação não o deixava abrandar nos preparativos da sua missão. Carregou só o que precisava, mochila nas costas com alguns alimentos juntamente com uma arma e outra na mão pronta disparar sobre qualquer coisa que se mexesse. Foi subindo as duras escarpas, foi perseguindo rastos de vestígios de quem procurava. A primeira noite caiu, conseguiu arranjar um abrigo, o frio era intenso e começou a ouvir os uivos, não estavam muito longe, era preciso estar desperto e ao nascer do dia iria retomar a caçada. Ao longe conseguiu avistar cinco lobos, o líder corpulento era bem visível no fim da fila. Foi se aproximando dia após dia, não podia falhar. Os lobos pressentiram a sua presença e formaram um semi-circulo para a emboscada. De armas em punho estava preparado para os enfrentar e quando os lobos avançam num ataque para surpreender, são surpreendidos e dispara sobre eles. Foi-os eliminando um a um perdendo o líder que conseguiu escapar. Já ao escurecer, ao subir um morro fica frente a frente com o lobo, de armas em punho carregadas prontas a disparar, de olhos nos olhos, o lobo também em posição de ataque à espera da iniciativa de quem desse o primeiro passo... era a hora da caça e do caçador. Nunca mais ninguém viu ou soube do que lhe aconteceu, o ultimo aldeão a ir ao Prado do Penedo foi o comerciante para resgatar o pagamento, dizem que o Prado do Penedo está assombrado. As histórias que se contam é de um ou outro viajante aventureiro que afirma que no Prado do Penedo tudo está igual, o moinho gira, a chaminé fumega e há pão e queijo sobre a mesa e as flores continuam frescas nas três campas Na aldeia contasse que o rapaz enlouqueceu de raiva e quando deixou o comerciante não via nada à sua frente, que os olhos estavam vermelhos de agressividade e foi montanhas acima à procura do lobo e quando o encontrou de tanto enfurecimento que levava o comeu vivo. Na aldeia conta-se que todas as noites um ser meio homem meio lobo desce do alto da serra e senta-se no penedo que fica sobe o prado, conta-se também que em noites de lua cheia consegue-se avistar da aldeia, alguém no ponto mais alto do maciço rochoso, a que lhe deram o nome de, a Fraga do Lobo.

                                                                       FIM.



 

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