28 Dias de Paixão -Tatuado No Coração

            

                                                                                      P R E F Á C I O

A mais nobre das paixões humanas é aquela que se deixa tocar pela imagem da beleza, e não pela matéria que a reveste. É no gesto de contemplar, mais do que no de possuir, que reside o verdadeiro prazer — um prazer sereno, quase sagrado, que encontra sentido na distância, no ideal, na alma do que é belo.

Poderá o coração desenvolver um sentimento intenso, profundo, inigualável, logo no primeiro cruzar de olhos? ..Apesar das palpitações, o verdadeiro responsável pela paixão é o cérebro.

Se apaixonar por alguém é como encontrar a pessoa mais importante da sua vida. Cada respirar, sentir, pensar e conquistar, tudo será voltado apenas para aquela pessoa. Sem contar que, diferente do amor, a paixão faz o  peito doer. É uma necessidade tão imensa de estar junto ao outro, nem que seja no mesmo ambiente apenas. Pois só de estar perto já basta para quem está sofrendo de paixão.

Primeiro vem a atração, depois vem a paixão que nos altera o comportamento , pensamento e fica no coração como uma tatuagem difícil de remover.... depois...o amor  se desenvolve entre seres que possuem a capacidade de o demonstrar, todos nos apaixonamos mais que uma vez, tenho como teoria que só temos um grande amor, temos também uma só  grande paixão e só acontece uma única vez .

Ela foi....o que nunca  tinha sentido e provavelmente jamais o sentirei. Se juntar todos os dias que estive com ela, deve faltar alguns para completar um mês....mas foi intenso , profundo, como nunca o tinha sentido.  A vida não é o tempo que ela dura, mas a intensidade com que a vivemos.

                                                                                1 / CARRASCAL

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Não sei bem onde me situar nesse tempo distante. Recordo apenas o frio que me atravessava a pele e a chuva fina que caía, quase como se quisesse apagar os contornos da lembrança. Esses sinais levam-me a crer que era tempo de férias da Páscoa. Corria o início da década de oitenta, e eu teria quinze, talvez dezasseis anos, quando chegámos ao Carrascal, em Sintra, para participar num campo de férias cristão evangélico. Lembro-me da sensação de novidade, de um mundo prestes a revelar-se, entre a fé, o silêncio e o cheiro a terra molhada.

De Braga partimos, quatro rapazes com o mundo à frente e o riso fácil de quem acredita saber tudo. Levávamos na bagagem a esperança de mais uma semana como tantas outras — feita de descobertas, confidências e sonhos novos. O destino tinha um propósito celestial, e nisso não havia descuido nem desleixo; mas, como o divino raras vezes caminha sozinho, deixávamos que o profano nos acompanhasse ao lado. Íamos em busca de fé, sim — mas também de rostos novos, de amizades por nascer e, talvez, de um ou outro namorico que o acaso nos oferecesse.

Chegámos como quem entra num lugar sagrado — devagar, atentos, deixando que o ambiente nos acolhesse antes de nos darmos por completos. A nossa entrada foi discreta, quase cúmplice. Primeiro era preciso ver, sentir o espaço e as pessoas, antes de sermos vistos. Afinal, perceber o que alguém sente sem uma palavra é a arte maior da empatia.

Foi então que a vi. No meio das apresentações, os nossos olhares cruzaram-se — dela veio um brilho suave, um sorriso que misturava inocência e mistério. Era bela, com uma postura confiante, de quem sabe o que deseja. Havia nela um ritmo natural, um movimento leve dos quadris que parecia acompanhar a própria música do momento. E, por um instante, o tempo suspendeu-se. Ficámos presos naquele olhar doce e provocador, como se o resto do mundo tivesse deixado de existir.

Mesmo depois de conhecer muitos rostos e novos sorrisos, havia algo no dela que me desarmava. Era como se aquele sorriso tivesse sido feito à medida da minha alma — o remédio silencioso que ela sempre procurou.
Naquela empatia mútua, senti uma atração tão forte quanto serena, uma mistura de encanto e sedução que me prendeu por inteiro. A partir desse instante, o mundo à minha volta perdeu cor e forma; deixei de ver graça em qualquer outro olhar. Só existia ela.
Sentia, sem precisar de palavras, que o meu coração já lhe pertencia desde o momento em que chegou — quando as nossas auras se tocaram pela primeira vez. E nesse toque invisível, percebi que já não era o mesmo. Mas, curiosamente, também já não queria voltar a ser.

À noite, à volta da conversa com os meus companheiros de Braga, falávamos — como quem afia armas antes de uma batalha — sobre estratégias de sedução. Contei como ela me prendera o olhar, como algo nela se destacava do resto. O Eliseu, com aquele jeito meio disfarçado, confessou que ela também tinha sido a que mais o despertara. Éramos uns cinquenta jovens naquele acampamento, talvez mais, mas foi logo no dia seguinte que se formou um pequeno núcleo — e ela estava lá, no centro, como se fosse natural.

Sentia que gostava de estar perto de mim. Havia momentos, olhares, risos partilhados que me faziam acreditar nisso. Mas havia também o Eliseu — e, entre os dois, uma certa leveza, uma cumplicidade silenciosa, como quem já se conhece ou se reconhece. Isso inquietava-me. Comecei a perguntar-me, sem coragem de perguntar a eles: até onde já tinham ido? Até onde estavam dispostos a ir?

Sentia entre eles uma proximidade evidente. A verdade é que via o Eliseu a quilómetros de mim — não só na ligação que parecia ter com ela, mas também na forma como se movia naquele cenário. Como amigo, não me restava muito a fazer. Acabei por virar o barco, dar espaço, e convencer-me de que era melhor seguir em frente.

Ainda assim, havia algo que me inquietava. Por mais que tentasse, nenhuma outra me despertava interesse. Bastava estar onde ela estivesse para sentir uma espécie de paz, como se a sua presença me realinhasse por dentro. Acredito que esse sentimento fosse mútuo. Havia entre nós uma atração silenciosa, talvez até involuntária, mas real — e isso transparecia nos gestos, nas conversas, nos pequenos momentos de partilha ao longo da semana.

Mas essa ligação, por mais leve que fosse, deixava-me dividido. Tinha receio de que acabasse por abalar a dinâmica do nosso trio, do equilíbrio que nos unia. Ao mesmo tempo, havia algo de confuso na relação entre ela e o Eliseu. Por vezes pareciam distantes, como se estivessem alheios um ao outro, e isso baralhava ainda mais o que eu sentia e pensava.

A semana chegou ao fim, mas o pequeno grupo que formáramos — quase todos da zona de Lisboa — convidou-nos a prolongar a estadia por mais uns dias. Aproveitei que tinha uns tios a viver em Queluz, onde ficámos hospedados para jantar e dormir, enquanto os almoços eram partilhados nas casas desses novos amigos.

Passeámos por Lisboa, descobrindo a cidade com olhos jovens e despreocupados. E, apesar de ela e o Eliseu estarem oficialmente a namorar, havia algo nos gestos dela que me fazia hesitar nas certezas. Sentia — e via — que ela procurava estar sempre por perto, como se quisesse garantir que a minha presença não se perdia entre os outros. Essa proximidade, por mais discreta que fosse, deixava marcas silenciosas nos meus dias.

Aqueles dias chegavam ao fim — dias que, apesar das circunstâncias, me tinham trazido uma felicidade serena, quase inesperada. Era o nosso último dia. Já anoitecia quando apanhámos o autocarro. Sentei-me sozinho, no banco atrás deles. Lá fora, o escuro colava-se às janelas, enquanto a luz interior do autocarro desenhava, no vidro, o reflexo dos nossos rostos.

Durante quase toda a viagem, os meus olhos cruzaram-se com os dela — vezes sem conta. Eram olhares longos, silenciosos, aparentemente perdidos... mas havia neles uma intenção clara, como se soubessem exatamente onde queriam chegar. Não eram palavras, mas diziam tudo.

Sentia um aperto no peito, aquele tipo de dor silenciosa que vem com as despedidas. Era a perda iminente, não só do momento, mas daquilo que poderia ter sido. Doeu-me a antecipação de uma oportunidade que escapava entre os dedos. Sabia que na última paragem viria o adeus — o definitivo, o inevitável.

Num desses olhares cruzados, notei que ela chorava. Lágrimas discretas, quase escondidas na penumbra do autocarro, mas visíveis o suficiente para me abalarem. Senti-me impotente, inquieto, tentando adivinhar o que se passava. O Eliseu levantou-se e saiu indo para outro lugar do autocarro, deixando-a sozinha.

Num impulso que me pareceu natural, sentei-me ao lado dela. Com delicadeza, limpei-lhe as lágrimas com a ponta dos dedos, num gesto mais honesto do que qualquer palavra. E, baixinho, perguntei-lhe:
— Porquê?

Encostou a cabeça no meu ombro, aproximou-se de mim com uma doçura desarmante… e, nesse instante, tornou-se única, absolutamente adorável. Como quem conhece os atalhos da alma, foi buscar dentro de mim uma paixão adormecida, eloquente — um amor quente, inteiro, urgente. Trouxe-me paz. Deixou-me pleno, como se, de repente, a vida fizesse todo o sentido.

E então, com uma simplicidade desarmante, numa das frases mais doces que já ouvi, disse apenas:

— Eu gosto é de ti…

Nesse momento, fui arrebatado. O mundo à volta deixou de existir. Não me lembro do que dissemos depois, nem do que fizemos até ao fim da viagem. Talvez tenhamos ficado em silêncio… ela, deitada sobre o meu ombro, aproveitando o calor que nascia da aceleração de dois corações que, finalmente, se libertavam do silêncio, da reserva, da timidez contida.

Na despedida, ficou gravado o beijo — tímido, meio desajeitado, pousado no canto da boca como quem não sabe se pode, mas sente que deve. Um beijo constrangido pela situação, mas carregado de significado. O primeiro. Um beijo com amor é como provar uma fruta pela primeira vez, sem saber ao certo o sabor… e, ao senti-lo, descobrir algo tão único que se deseja repetir, de novo e de novo, até que se torne essencial — como alimento.

Havia uma simplicidade mágica naquele gesto, e talvez por isso mesmo se tenha perdido no próprio desejo, tão grande, tão intenso, que o beijo quase não coube em si.

Prometemos reencontrar-nos em julho, no primeiro campo de férias da nossa faixa etária — novamente no Carrascal. Que loucura boa era essa sensação de voltar para casa já com a certeza luminosa de que, em breve, a voltaria a ver. O futuro, por instantes, parecia prometer tudo.

                                                                                                2/ De Abril para Julho

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Sentia uma saudade imensa do que nunca cheguei a ter — do beijo que não aconteceu, do perfume que só imaginei, do abraço que ficou suspenso no tempo.
O pensamento fugia-me constantemente para o sul, onde a lembrança dela ganhava forma e cor. Tinha saudades do meu próprio desejo, porque, no fundo, era só dela que eu queria — e de mais ninguém.

Nesse intervalo vivia um compromisso feito de ansiedade e desejo. Os dias arrastavam-se devagar, e o gesto de os riscar no calendário tornou-se quase um ritual sagrado.
Quantas vezes me apeteceu arrancar as folhas do mês, só para enganar o tempo e tornar a espera do reencontro menos cruel.
O amor, quando é verdadeiro, não mede o tempo como os relógios — conta os meses em horas, os dias em anos, e faz de cada ausência uma eternidade. 

E ainda assim, havia uma estranha doçura nessa dor.
Como se a própria saudade me lembrasse, a cada batida do peito, que algo em mim ainda respirava por ela.
Era como caminhar com o coração na mão — vulnerável, exposto, mas teimosamente vivo.

Nas noites mais silenciosas, imaginava o instante em que finalmente a veria chegar.
O mundo, por breves segundos, parecia organizar-se inteiro em torno dessa possibilidade.
E eu sabia que bastaria um olhar dela para desfazer em mim todas as dúvidas, todos os medos, todas as horas que passei a tentar convencer-me de que podia continuar sem a sua presença.

Mas o amor tem dessas ironias: cresce mesmo no vazio, alimenta-se do que não aconteceu, expande-se nas entrelinhas.
E foi assim que percebi que a espera não era um castigo — era a prova.
A prova de que sentir é, por si só, uma forma de existir ao lado de alguém, ainda que esse alguém esteja longe.

No fundo, cada dia que passava aproximava-me dela de um jeito silencioso.
Preparava-me. Moldava-me.
Tornava-me capaz de reconhecer que certos encontros, mesmo tardios, chegam sempre na hora certa.

E quando chegasse o momento — porque eu acreditava que chegaria —
toda a saudade que carreguei como um peso transformaria-se numa leveza nova,
como quem finalmente respira depois de muito tempo submerso.

                                                                          JULHO

O reencontro em julho, no Carrascal, foi um despertar de novas sensações — um mergulho suave em sentimentos que até então desconhecia. Descobríamo-nos aos poucos, um no olhar do outro, num jogo de gestos e silêncios que dizia mais do que qualquer palavra.
A cada encontro, o mesmo friozinho na barriga, a mesma urgência de voltar a vê-la, de prolongar o instante, de repetir o dia seguinte... e o seguinte também. Era uma vontade doce e inquieta — a de estar juntos, sempre mais um pouco.

Os dias seguiam o ritmo calmo das rotinas do acampamento. Por ser cristão, havia regras que nos impunham contenção — gestos medidos, olhares discretos, afetos guardados no silêncio.
Ainda assim, cada pequena oportunidade ganhava um significado maior. Às refeições, o simples ato de guardar o lugar ao lado tornara-se um ritual cúmplice, algo que os outros já aceitavam com naturalidade.
E nos raros momentos a sós, o tempo parecia encolher. Cada segundo era precioso, roubado à eternidade.
Queria sentir-lhe a presença, o calor do corpo, a respiração próxima. Queria guardar o sabor do beijo sonhado e descobrir, sem pressa, cada detalhe que a tornava única.

Desvendávamos, pouco a pouco, os nossos desejos — em beijos trocados às escondidas, em gestos furtivos que o olhar denunciava.
Nas saídas, o simples ato de andar de mãos dadas era o máximo que o mundo nos permitia mostrar… e, ainda assim, parecia tudo.
Havia em mim uma vaidade inocente, quase pueril — sentia-me a última bolacha do pacote, o eleito de um privilégio raro.
Afinal, a vaidade é uma sombra subtil da alma humana: surge onde menos se espera, aninhada ao lado da bondade, da entrega e da generosidade.

Não me recordo de grandes conversas sobre o futuro — talvez porque a paixão não precise disso. Ela vive do presente, alimenta-se de toques, sorrisos e olhares… de cumplicidade.
É saber dar ao outro o que ele ainda não disse, e receber o que vem nas entrelinhas de um gesto.
Tentávamos estar sempre juntos nas atividades, arranjar maneira de ficar na mesma equipa — fosse a lavar a loiça, a pôr a mesa ou a cumprir qualquer tarefa simples.
E quando, por algum motivo, tínhamos de nos afastar, bastava-me um olhar. Aquele olhar doce, meigo, carregado de ternura e cumplicidade, que me procurava e me pedia, em silêncio, para esperar.
Recordo-me bem: depois de cada brincadeira ou comentário meu, vinha sempre a mesma palavra nos seus lábios, dita com carinho e um sorriso travesso — “parvo”.

A paixão ia-se compondo como uma receita perfeita — cada ingrediente no ponto certo: a atração inicial, o encanto crescente, e até aquela semana em que ela namorou com o Eliseu, tempo em que estive por perto, a observá-la sem me dar conta de que algo em mim se transformava.
Tudo aquilo teve um efeito estranho, quase alquímico. Sentia-me diferente, mais exposto, como se algo dentro de mim tivesse subido a outro patamar.
Não era que nunca tivesse sentido a agitação da paixão antes — mas desta vez havia algo de novo, de inexplicável.
Era uma mistura vertiginosa de alegria, plenitude e prazer; o coração acelerava, batia descompassado, como se quisesse saltar do peito.
Cada instante, cada olhar, cada toque, era uma explosão de sentimento, uma aula prática sobre o que é sentir verdadeiramente.
Aquela paixão — intensa, desordenada e bela — era, sem dúvida, o meu ginásio do coração.

A semana chegava ao fim, e com ela o encanto de dias perfeitos — feitos de risos partilhados, passeios demorados e olhares cúmplices que diziam mais do que as palavras.
O tempo, agora, parecia escorregar-nos por entre os dedos, e cada minuto que passava tornava-se precioso, quase sagrado.
Já sentia o peso da distância que se aproximava, o vazio que viria quando deixasse de a ver.
Ainda assim, havia um consolo silencioso: a esperança de um reencontro no Norte, talvez noutro acampamento da União Bíblica.
Ambos queríamos acreditar nisso — e, por instantes, essa fé bastava para adoçar a despedida.

A despedida, dessa vez, teve tudo o que o coração podia pedir.
O beijo apaixonado selou a nossa felicidade e, antes de partir, ainda lhe limpei uma lágrima que teimava em escorregar pelo canto do olho.
Quando a carrinha que nos levaria à estação chegou, demorámo-nos num último abraço — longo, silencioso, cheio de promessas que não precisavam de ser ditas.
Foi um adeus suave, mas pleno de tudo o que as palavras não conseguiam traduzir. Um daqueles momentos que o tempo não apaga, apenas guarda — como se o coração, por instinto, soubesse que ali começava a saudade.

Na viagem de regresso a Braga, era o olhar dela que me acompanhava — sobrepunha-se a tudo, até ao aperto que trazia no peito. Via, como se estivesse diante de mim, o brilho apaixonado dos seus olhos, o sorriso genuíno, o calor ainda recente do seu toque. Era uma lembrança tão sublime quanto uma brisa leve que nos acaricia o rosto num dia quente de verão… e, ao mesmo tempo, tão intensa que me absorvia por completo, como se nada mais existisse além daquilo que sentia.

E enquanto nos afastávamos, levámos connosco pedaços um do outro — impressos na memória, no corpo, no coração. Ficava a certeza de que aquele amor, mesmo à distância, continuaria a pulsar. Não era apenas uma paixão passageira… era uma paixão do coração, daquelas que se instalam fundo e se recusam a partir.

Já no comboio, o vazio começava a fazer-se sentir. A saudade chegou cedo — do abraço apertado, do beijo demorado, e da promessa silenciosa de um "para sempre" ao teu lado.      

                                                                           3 / COMPLEXIDADE

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Aqueles últimos sete dias de agosto, nas Quintas do Norte, foram vividos como se fôssemos um verdadeiro casal apaixonado. O ambiente do acampamento — o espaço, as atividades, a leveza dos dias — ofereceu-nos uma liberdade tranquila, quase cúmplice, que nos permitiu estar mais à vontade, mais próximos… mais nós.

Na praia da ria, entre risos e silêncios partilhados, descobríamos o sabor de uma intimidade serena, feita de gestos simples e olhares demorados. Foi ali, entre o sol, a areia e a calma da maré, que o tempo pareceu abrandar — como se nos desse permissão para viver aquele amor com todos os sentidos.

Junto aos canaviais, alheios ao mundo e ao que nos rodeava, levámos a paixão ao seu ponto mais alto — cru e verdadeiro. Estávamos entregues, completamente tomados por aquela loucura húmida e quente, onde o tempo deixava de contar. Que crueldade era essa: viver algo tão intenso… e ter de deixá-lo guardado apenas na saudade.

Talvez o que fizemos ali não fosse novo — talvez já o tivéssemos vivido com outras pessoas —, mas com ela, com quem se está verdadeiramente apaixonado, tudo ganhava outra dimensão. Era diferente. Era arrebatador.

Perdemo-nos no prazer, na respiração descompassada, nos sussurros e nos gemidos abafados, nos gritos que o silêncio dos campos absorvia. E tudo aquilo acontecia tão perto… aos pés dos nossos ouvidos. Tão íntimo. Tão nosso.

Os astros pareciam ter-se alinhado a nosso favor. Tudo conspirava para que aquela paixão ganhasse raízes mais fundas, para que desse o salto e se transformasse, enfim, em amor. E, como que a testar essa transformação, tínhamos pela frente uma prova importante: a reunião anual da União Bíblica, marcada — por uma deliciosa ironia do destino — justamente para Braga, em novembro.

Tudo estava alinhavado. Ficara combinado que ela viria, e até se falara da possibilidade de ficar alojada em minha casa, se assim o desejasse. Nas poucas e escassas comunicações que mantínhamos — limitadas pelos meios e pela distância — fomos afinando essa ideia, alimentando a esperança. Durante aqueles meses, nada indicava que não se realizaria. Tudo apontava para o reencontro.

Quando o autocarro vindo da zona de Lisboa chegou e os passageiros começaram a descer, procurei-a com o olhar, cheio de expectativa. Mas ela… não saiu. Um a um, os rostos iam passando por mim, e o dela não estava entre eles.

Inquieto, fui perguntando aos conhecidos, tentando disfarçar a angústia. Mas ninguém sabia de nada. Alguns nem sequer sabiam que estava previsto que ela viesse. A desilusão caiu sobre mim com um peso inesperado. Tentava encontrar desculpas, argumentos lógicos que explicassem a sua ausência. Talvez um imprevisto de última hora. Talvez não tivesse tido tempo de me avisar. Talvez...

Mas nada me era dito. Nenhuma explicação. E assim, desolado, atordoado por aquela ausência sem aviso, vagueei por entre a multidão, procurando desesperadamente um rosto, uma palavra, qualquer sinal que me aliviasse a ansiedade — ou, quem sabe, o desespero silencioso que começava a crescer por dentro.

Não consegui assistir à cerimónia. O corpo estava presente, mas a mente não conseguia fixar-se em nada. Tudo à minha volta girava, como se estivesse embriagado de sentimentos contraditórios. Era uma verdadeira montanha-russa emocional: entre a tristeza e a incredulidade, entre a espera e o vazio.

Saí pelas ruas da cidade, sem rumo, sem direção — perdido, sozinho, consumido pela tristeza. As ruas pareciam distantes, como se a cidade tivesse se distorcido à minha volta, tornando-se um labirinto sem fim. Continuava a vagar, sem saber bem o que procurava, apenas sentindo que a dor e a angústia ecoavam no vazio do meu coração, como um grito silenciado.

Lembro-me de ter me sentado num banco da avenida, como se aquele pequeno gesto fosse uma réstia de esperança, uma última tentativa de encontrar algum sentido. Olhava para o fim da rua, esperando contra todas as probabilidades que ela aparecesse. E, na minha mente, a cena desenhou-se claramente: ela corria, aflita, e ao me alcançar, olhava para mim com aqueles olhos cheios de arrependimento e dizia:

— "Desculpa, amor"... 

Eu sabia, mesmo naquele turbilhão de sentimentos, que de certeza eu lhe perdoaria. O perdão, como uma necessidade do coração, viria de forma natural, como o alívio de uma dor antiga.

A rua estava vazia. Não havia mais ninguém ali… só eu e a minha sombra, projetada na calçada pela luz fria dos candeeiros do jardim, refletindo uma solidão que parecia eterna.

Era tristeza, era agonia, era o peso da solidão. Havia algo de estranho naquela quietude, como se o mundo tivesse parado e me deixado ali, suspenso no vazio. E, de repente, uma pergunta surgiu: podemos escolher o momento de parar? De dar fim à dor?

Mas seria isso o que realmente importa? O fim da dor, ou o simples fato de ainda estar ali, respirando, enfrentando a noite?

Considerei um preço muito alto, sentindo-me um tanto enganado, mas a paixão sobre o salto,
acabou me deixando esmagado...Até que me  caiu a ficha....pressenti o fim. Naquele instante via com clareza que o que ficou para trás só podia mesmo viver no passado.  

                                                                    4 / DOCES MEMÓRIAS

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Durante este período de desintoxicação, aprendi que a única receita possível era aceitar o inevitável e tentar viver, mesmo quando tudo parecia suspenso no tempo. A reflexão tornou-se o meu refúgio e a minha cura. Aos poucos, deixei de ser apenas o paciente sentado no sofá, perdido nas próprias dores, para me transformar no psicólogo que escuta o seu próprio silêncio — com cuidado, com ternura, com a atenção que antes nunca soube ter e perceber :

Um dia uma paixão tentou virar amor, não foi nem num belo dia, foi num dia qualquer. E este ser se estranhou, era mesmo um corpo estranho, estranhíssimo. De fato, não se reconheceu, perdeu a identidade por alguns dias, pois não sabia, nem tinha dimensão do quão diferente forma havia se tornado, não me reconhecia.

Esse possível novo amor, mesmo quando se expôs, não teve identidade, isso porque por quem ele havia crescido, não estava nem aí.  Noutro dia, um belo dia, o possível amor se acabou, era fatal que terminasse assim, sem dúvidas de que havia existido, sem respostas da razão da sua breve e inesquecível existência. Foi breve, se for relativo quanto ao tempo de vida...mas foi longa assim mesmo na intensidade vivida.

Em novembro, depois de encarar a complexidade da situação e de ter plena consciência do que acontecera, ainda guardava uma esperança tola, esperando que nos ventos do sul chegassem notícias. Mas não. Por natureza, ou talvez por defeito de caráter, nunca fui de pedir explicações. Se ela não queria dar, não seria eu a insistir.  Naqueles dias, vivi numa ressaca emocional, uma comparação que se fazia inevitável. Foi como se ela tivesse me lançado de um precipício, mas ainda segurasse uma das minhas mãos enquanto eu estava pendurado, à mercê do abismo. E ali, naquela posição desesperada, nutria a esperança de que ela me estendesse a outra mão, me puxasse de volta, me salvasse.

Mas era apenas uma ilusão. E, como todas as ilusões, desmoronou. Eu caí.

 Sereno, numa tentativa de compreender ia decifrando nas entrelinhas do que escreveu e disse, estava lá tudo, o problema é que eu estava cego... Cego de amor, confesso, que mesmo que parecesse estar tão claro o que aconteceria a seguir,  ainda assim me restou uma dúvida, uma esperança, porque foi lindo o que aconteceu entre nós, mas não deu para mais.  Mas se falasse...me pouparia do sofrimento, e a pouparia de usar uma desculpa, que por acaso ou não nunca chegou acontecer, nada de nada. Eu pensei, decidi, se inviável é a correcção, oportuno é o ponto final.

Talvez fosse dezembro. Ainda vivia em processo de desintoxicação daquela paixão — aos poucos, tentando reencontrar o ritmo normal da minha vida. Foi nesse contexto que me desloquei ao Porto, para uma reunião da União Bíblica, na ACM. No final, já em ambiente de convívio, entre conversas leves e risos partilhados com tantos rostos familiares dos acampamentos, surgiram aquelas perguntas inevitáveis: "E aquele, como está?", "E a outra, por onde anda?"

E então, veio à baila o nome da Sílvia.

Confesso que me tremeram as pernas. Senti o corpo vacilar e, com esforço, mantive-me firme. O sorriso — talvez mais automático do que consciente — manteve-se no rosto, sem vacilar, apesar da guinada súbita que me atravessou por dentro. Pensei que não estaria pronto para qualquer novidade. E, ainda assim, consegui manter a postura quando ouvi: "Ela está com outro namorado."

A notícia não me apanhou de surpresa, mas doeu. Apesar de saber, no fundo, que tudo já tinha terminado há muito, talvez — no canto mais esquecido do subconsciente — ainda restasse uma réstia de esperança, pequena e teimosa. E foi essa esperança silenciosa que, ali, finalmente, se desfez.

 O momento de fazer alguma coisa era quando eu ainda podia tentar, nos explicar. Não agora, agora a decisão já foi e está tomada. Não há mais nada a ser feito, a não ser, vê-la partir. Quando pensamos, fazemos com um fim  de chegar a uma conclusão, quando sentimos, é com  valor pessoal a qualquer coisa que fazemos.

Terminar um namoro nunca é fácil, é como chegar no final de um livro que poderia ter uma continuação maravilhosa, mas não tem. Foi nesse momento que reforcei o ponto final..foi a ultima vez que ouvi falar dela... foi ela que fechou o livro.

Apesar de tudo na minha perplexidade e desolamento não desenvolvi nenhuma mágoa, ressentimento e mesmo na decepção não ficou nenhuma animosidade.

O sentimento que ficou foi profundo tão intenso que só ficou a doce memoria de 28 dias de paixão....porque ela foi que me levou a pôr a ultima musica a tocar.

                                                              FILME DA HISTÓRIA

                                                                                         F I M 

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