A ILHA - Cada homem é uma variedade da sua espécie
“A boa sociedade é um rebanho de refinados, formado por duas tribos: os maçadores e os maçados.” ....Cada homem é uma variedade da sua espécie .
Parte 1
As memórias que lhe assaltavam a alma transportavam-no para um passado distante, de raízes diferentes daquelas onde crescera. Tornou-se homem ainda jovem, inquieto, sem compreender as origens desse desassossego — até ao dia em que os pais lhe revelaram que era filho único de coração. Só então percebeu as sombras e ansiedades que o habitavam.
Os raios de sol atravessavam as janelas, deixando no ar um pó cintilante. O aroma de café acabado de fazer e torradas quentes espalhava-se pela casa. Ao fundo, um rádio sintonizado numa estação qualquer ecoava pelo corredor, misturando-se com um cantarolar leve de quem se ocupava nas tarefas domésticas. Ouviam-se marteladas espaçadas, o ranger de um baloiço, o choro de um bebé e gargalhadas infantis, enquanto nas árvores os pássaros chilreavam como se agradecessem aos céus.
Na casa ao lado, o galo altivo entoava o seu canto, acompanhado pelo cacarejar das galinhas e pelo som ritmado da sachola na terra. O gato, em pose felina sobre o muro, aguardava migalhas; o cão, atento e de orelhas erguidas, abanava o rabo à espera de um gesto. Um “bom dia” ao vizinho, o carro renitente a pegar, a motorizada ruidosa que interrompia uma conversa cortês — e uma frase que quase ficava por terminar. Mais abaixo, a praça fervilhava com quem corria atrás da vida, e ao fundo o pequeno porto de pesca repousava junto ao rio, voltado para a vastidão do mar.
Abriu a janela do quarto, respirou fundo o ar salgado e contemplou tudo como quem se despede.
Beijou a mãe, apertou a mão ao pai num abraço firme e sentido. A vida parecia um quadro perfeito, com um céu límpido onde se desenhava o rasto de um avião. Desceu a rua num passo calmo, seguro, irradiando felicidade — mochila às costas, carregando os últimos pertences.
Entrou no seu veleiro, já preparado para uma longa viagem, e partiu sem destino traçado. Crescera no seio de uma família tradicional de pescadores: o pai era capitão-mestre de uma traineira, e ele aprendera desde cedo a ler o mar. Tinha a sensação de que aquela não era a primeira vez que estava entregue à própria sorte — apenas ele, o céu e o oceano.
Enfrentou ventos, tempestades e glaciares, até que, depois de muito navegar, ficou à deriva. As velas pendiam murchas por falta de vento, e o motor auxiliar inexplicavelmente deixara de funcionar. Sob o sol escaldante, deitado no casco, avançava ao sabor de correntes lentas.
De súbito, um estrondo de água. O barco balançou estranhamente quando uma enorme vaga surgiu à sua frente, erguendo-se como uma montanha líquida. Um vento forte soprou por trás — teve apenas tempo para içar as velas e, como quem escala, cavalgou a onda gigantesca.
Parte 2
A ilha era habitada por duas tribos que em tempos viveram em harmonia: os Marágua, no sul, e os Mátipu, no norte.
O sul era plano, com praias calmas de águas transparentes. Ali os Marágua viviam da pesca e da agricultura. No norte, o terreno era acidentado, com falésias e mar revolto; os Mátipu eram caçadores, um povo mais guerreiro.
Entre ambos, erguia-se um maciço montanhoso que servia de fronteira. Sob ele corria um rio, nascido a norte e desaguando a sul, reforçando a separação. O topo da montanha só era acessível pelo lado sul, tornando-o quase inalcançável para os do norte.
As trocas entre os povos eram antigas e cordiais, feitas pelas margens do rio ou por mar. Os Marágua escolheram o alto do maciço para o descanso final dos seus mortos, acreditando que quanto mais perto do céu, melhor o vento levaria o espírito. O cemitério era sagrado: apenas o líder espiritual, o ancião mais velho e os homens que transportavam o corpo podiam entrar.
Os Mátipu tinham o seu ritual próprio: queimavam os corpos e lançavam as cinzas ao mar.
As hostilidades começaram quando Acir, herdeiro dos Mátipu, ambicionou dominar toda a ilha, movido por ciúme. Amana, prometida a ele, apaixonara-se por um Marágua — Abaeté — durante uma das trocas entre tribos. Os anciãos recusaram o casamento entre eles, e Acir forçou o enlace com Amana. Abaeté casou com Ayra, seguindo os preceitos da sua gente.
Dois filhos nasceram: Anahi, de Acir e Amana; Kauê, de Abaeté e Ayra.
Mas Acir nunca aceitou que o coração de Amana pertencesse a outro. Assim que o pai morreu e ele assumiu o poder, lançou uma ofensiva contra os Marágua, apanhando-os desprevenidos e subjugando-os facilmente. Autoproclamou-se Rei Supremo da ilha.
Parte 3
Os Marágua foram reduzidos à servidão. Qualquer descontentamento era punido publicamente.
Abaeté foi torturado pelo próprio Acir durante vários dias, até à morte. Este proibiu os rituais tradicionais e impôs os da sua tribo — uma blasfémia para os Marágua. Tentaram revoltar-se, mas foram esmagados.
Acir, ainda movido pelo rancor, lançou ele mesmo as cinzas de Abaeté ao mar, obrigando todos a assistir — incluindo Amana. Consumida pela dor e vergonha dos actos do marido, lançou-se das rochas e morreu.
Enlouquecido pela raiva e culpabilidade, Acir ordenou a destruição total da tribo. Subiram a montanha, profanaram o cemitério e queimaram os corpos.
Ayra, seguindo o conselho de Abaeté antes de morrer, preparara a fuga com o filho Kauê. Escondeu o menino numa piroga, mas ao tentar fugir foi assassinada pelas costas. O mar, agitado como se movido por forças invisíveis, levou a pequena embarcação e aí Kauê derivou, sobrevivendo por milagre.
Noutro mar, uma traineira encontrou a piroga. Os pescadores mal podiam acreditar — aqueles mares não conheciam terra próxima. O capitão-mestre, casado mas impossibilitado de ter filhos, assumiu o bebé e baptizou-o ali mesmo como Salvador.
Na ilha, porém, a vida tornou-se desgraça: furacões, secas e fome atingiram-na. O rio quase secou. O povo desesperava e Acir caía em descrédito. Apenas Anahi conseguia influenciá-lo — pediu-lhe que subisse ao monte sagrado e pedisse perdão aos espíritos Marágua. Só assim, acreditava ela, a paz podia regressar.
Acir subiu. Assim que entrou no cemitério, o céu escureceu por cima do monte, com trovões e chuva torrencial. Na aldeia, porém, o dia continuava quente e seco. Acir nunca regressou — e ninguém ousou subir para descobrir o que acontecera.
Parte 4
Salvador conseguiu vencer a onda e, numa descida vertiginosa, o seu veleiro caiu num mar calmo. Avistou terra e, à medida que se aproximava, flashes de memória atravessavam-lhe a mente — sentia ter estado ali.
Os habitantes correram para a praia — ninguém ali recebia desconhecidos. Anahi, ao vê-lo, chamou-o Kauê, reconhecendo nele traços do seu povo. O povo cercou-o como se o esperasse. Ao ouvir a história, Salvador percebeu que aquele era o seu lugar.
Antes do nascer do sol, guiado por vozes e instinto, subiu ao monte sagrado. A nuvem negra ainda pairava ali. Limpou o recinto, reconstruiu esteiras, recolheu restos mortais e honrou os que tinham perecido naquele dia sangrento.
Encontrou o corpo de Acir e levou-o de volta à aldeia. À medida que descia, uma brisa fresca trouxe o cheiro do mar há muito desaparecido. O povo ajoelhou-se e o rio começou a correr.
Entregou o corpo a Anahi, que pediu para cumprir as cerimónias segundo as tradições Mátipu. Lançou as cinzas ao mar; as ondas levaram-nas, as flores abriram, as aves aproximaram-se — e a nuvem que durante anos assombrara a ilha dissipou-se.
Kauê — Salvador — era o último sobrevivente dos Marágua. Mesmo assim, conseguiu unir a ilha numa só tribo, criando com Anahi uma nova linhagem e um novo começo.
Parte 5
Passaram-se algumas luas sobre a união da ilha. O vento voltou a soprar suave, trazendo consigo o cheiro doce do mar. O rio corria forte, alimentando campos férteis onde antes apenas havia secura e fome. A aldeia — agora uma só — crescia com sons de crianças a brincar, fogo aceso nas noites e cânticos que misturavam tradições das duas antigas tribos.
Kauê, agora reconhecido como Salvador e herdeiro espiritual dos Marágua, caminhava entre o povo com serenidade. Trazia no olhar a memória de duas vidas — a que vivera no mar e a que descobrira na terra onde pertencera desde sempre. Ao seu lado, Anahi, guardiã das raízes Mátipu, partilhava essa liderança feita de equilíbrio: força e compaixão, terra e água, passado e renovação.
No topo do monte sagrado ergueu-se um novo espaço devocional, onde as esteiras dos Marágua repousavam ao lado das pedras rituais Mátipu. Uma vez por ciclo lunar, os dois acendiam o fogo e conduziam o povo num ritual conjunto — agradeciam aos espíritos e pediam que guiassem futuras gerações.
Numa dessas noites, a lua estava cheia e enorme sobre o oceano. O povo reunido sentia a brisa leve como se os antigos voltassem a tocar-lhes os ombros. Kauê e Anahi colocaram no centro da clareira um pequeno feixe de flores e sementes, símbolo do que a ilha podia vir a ser.
Enquanto o ritual prosseguia, uma vaga silenciosa aproximou-se da costa. Não era grande, mas brilhava como prata ao luar. Quem estava mais próximo jurou ter ouvido nela um murmúrio, quase uma chamada. Kauê sentiu um arrepio familiar, semelhante ao que antecedera a enorme onda que o trouxera ali. Anahi sentiu também e pousou-lhe a mão no braço — havia ali mensagem.
Depois dos cânticos, o povo regressou às suas cabanas, mas Kauê permaneceu à beira do mar. Fitava o horizonte escuro onde tudo começara e terminara tantas vezes. O vento trazia palavras que ainda não sabia decifrar. Anahi aproximou-se dele.
— O mar nunca se cala — disse ela — Apenas espera.
Ele olhou-a, reconhecendo naquelas palavras a verdade que o acompanhara desde o berço. O destino da ilha parecia finalmente pacificado, mas a brisa anunciava que nem tudo estava concluído. Havia outras águas, outras terras, talvez até outras ilhas onde histórias aguardavam.
O dia seguinte amanheceu com céu limpo. A aldeia estava desperta e alegre. Porém, sobre o mar, via-se ao longe um ponto minúsculo — uma vela, ou talvez apenas reflexo. Salvador franziu o olhar, sentindo o coração pulsar como naquela primeira partida.
O capitão Mestre, já velho, observava-o discretamente. Aproximou-se e, com voz pausada, sussurrou:
— Quem vem do mar, nunca lhe pertence apenas a ele. Um dia ele chama de volta.
Kauê não respondeu, mas o pressentimento ficara. A ilha tinha sido reunificada, mas a história não terminava ali — apenas descansava.
Ele voltou-se para Anahi, que sorria com serenidade. Atrás deles, crianças brincavam na areia, lançando conchas às ondas. O rio brilhava, pleno de vida.
O mar, silencioso, voltava a respirar.

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